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sábado, 22 de março de 2014

Por que eu não gosto do sistema de saúde americano?

by Luciana Misura on 10/04/2013

Hoje mais uma vez tive que levar a Julia ao médico (ela está com o joelho esquerdo super inchado e vermelho), que acabou pedindo pra gente ir ao hospital, e nessas horas a vontade é pular no primeiro avião pro Brasil. Mas por que eu não gosto do sistema de saúde americano, me perguntaram quando reclamei no Twitter. Tem vários motivos, senta aí que lá vem história.

1) O sistema de saúde americano não trabalha em favor do paciente, e sim dos planos de saúde (health insurance). Os médicos pedem ou não pedem exames de acordo com as orientações dos planos, se eles acham que o plano vai ou não vai pagar, e não de acordo com o que o paciente precisa. Tem médico que ganha até bônus por não pedir certos exames. Quando eu estava tendo o problema dos abortos espontâneos de repetição a minha maior briga e sofrimento foi por causa dessa imposição. Os médicos se recusavam a pedir os exames, porque eles seguiam as orientações dos planos de saúde.

Mesmo eu dizendo que ia pagar do meu próprio bolso os médicos se recusavam a fazer o pedido. Os planos também pressionam os médicos a ver um número altíssimo de pacientes por dia. Quando você vai ao médico aqui, quem te atende primeiro é um(a) enfermeiro(a) que vai bater um papo contigo pra saber o que você tem, tirar sua pressão, temperatura, pesar, medir, e anotar isso tudo pro médico não “perder tempo” com você. Aí o médico chega, dá uma olhada no que o enfermeiro anotou e faz um exame rápido, diz o que vai te receitar, e vai embora. O enfermeiro volta depois pra trazer a receita pra você. Tudo rapidinho, nem pense que o médico vai investigar nada a fundo. O que me leva ao ponto seguinte…

2) A medicina aqui é extremamente reativa, nunca preventiva. Como ninguém tem tempo de conversar com você e querer saber mais qual é o problema, eles estão sempre receitando um remédio pra resolver o “aqui e agora”, mas raramente vão atrás das causas pra alguma coisa. Você como paciente tem que insistir muito mesmo se quiser uma investigação, exames, pra determinar as causas de qualquer coisa. Exemplo: o meu marido tem uma tosse que vai e volta, já há um tempão. Nenhum médico pesquisa as causas da tosse, só receitam um remédio pra ele parar de tossir, que acaba nem adiantando muito. Quando ele começa a perguntar sobre exames pra investigar a causa, a resposta é sempre rápida – deve ser alergia, tome um anti-alérgico todos os dias que resolve. Pronto. E aqui o que mais tem é mesmo gente que toma anti-alérgico todos os dias. Mas pergunta se algum desses médicos sequer pediu um teste de alergia? Não. Outro exemplo: meu marido tem a pressão meio alta, desde 21 anos de idade. Nenhum médico nunca mandou que ele mudasse a alimentação ou fizesse exercício, simplesmente mandaram ele tomar remédio diariamente. E não, a pressão dele não é alta de verdade, é apenas um pouco mais alta do que o ideal, qualquer médico no Brasil primeiro ia falar pra ele mudar a dieta e fazer exercício (ainda mais aos 20 anos!) antes de passar um remédio diário. Levei muitos anos pra convencê-lo a testar uma mudança de hábitos, e só quando ele entrou num programa de mudança de estilo de vida há 6 anos que ele viu com os próprios olhos como ele parou de precisar do remédio de pressão. Detalhe: o próprio médico falou pra ele antes dele começar o programa que “não ia adiantar nada”. Eu queria ir lá bater nesse médico, que fala uma coisa dessas pra um paciente disposto a tentar melhorar a sua saúde levando uma vida mais saudável. Mas o melhor tapa na cara foi quando o meu marido repetiu os exames no final do programa e estava tudo lindo com a saúde dele, o médico ficou de olhos arregalados e falou que não “estava acreditando”. Também já falei aqui sobre as infecções de ouvido recorrentes que o Eric tinha e os médicos queriam logo partir pra cirurgia, a gente que insistiu em tentar outros tratamentos menos invasivos primeiro e ele se deu muito bem com a quiropraxia. Depois que começou com a quiropraxia ele só teve uma infecção, quando diminuímos a frequência das sessões, isso já tem 5 meses.

3) Você raramente consegue falar com o médico fora do consultório. Se o seu filho está se sentindo mal, tem uma febre, e você precisa falar com o médico. Se for durante o horário que o consultório está aberto, você pode ligar e tentar encaixar uma consulta, geralmente a gente até consegue pro mesmo dia, nem que seja com outro médico da clínica na pior das hipóteses. Se não tiver vaga no dia, você vai falar com a enfermeira, que vai levar o assunto pro médico, e depois a enfermeira vai te ligar de volta com a resposta e uma possível prescrição de remédio. Se for depois do horário que o consultório está fechado, você vai cair numa enfermeira de plantão, e poderá ser cobrado pela ligação. Novamente a enfermeira vai falar com você pra avaliar a situação, e se for o caso, falar com o médico e te ligar de volta depois. Se for qualquer coisinha que a enfermeira fique com “medo de se comprometer” (leia: eles morrem de medo de processo), ela vai mandar você levar o seu filho pro pronto socorro. A gente aqui em casa nem liga mais depois da hora, porque eles sempre mandam pro pronto socorro mesmo, então não faz a menor diferença. Claro que existem exceções, tem um ou outro médico que te liga de volta mesmo, mas está longe de ser a maioria (o meu obstetra daqui de Austin ou os obstetras de plantão dessa clínica ligavam de volta). Ah, e pra piorar a situação, certos médicos terceirizam esse serviço de atendimento depois que o consultório fechou, então você liga e cai numa central de triagem e fala com alguém que está ali apenas pra repassar a mensagem. Médico que te dá o celular, como no Brasil, eu nunca encontrei por aqui (já me falaram que existe, mas deve ser o melhor exemplo de agulha no palheiro do mundo).

4) Eles tratam as crianças da mesma forma que os adultos – mal. Essa é a minha maior reclamação a respeito dos hospitais e pronto socorros por aqui, nas vezes que tive que levar meus filhos. Eles não tem a menor paciência com as crianças, e adotam a linha de que “a criança não vai lembrar”. Tudo é feito na marra, não tem papinho nem brincadeira, muitas vezes procedimentos que no Brasil as crianças são sedadas aqui elas tem que assistir tudo apenas com anestesia local, seguradas por pais e enfermeiros. É como se as crianças fossem objetos, que não tem sentimentos, você manuseia da forma que precisa pra resolver o problema e pronto. Tivemos uma experiência horrível com a Julia quando ela tinha 3 anos na emergência do hospital infantil aqui e ela até hoje tem trauma de hospital, e já entra no carro chorando pra ir a qualquer médico, quase 3 anos depois (ela já tinha medo de médico antes disso, depois o negócio piorou 1000 vezes).

Hoje por exemplo tivemos que levá-la porque está com o joelho vermelho e muito inchado, mas sem dor ou febre. A Pediatra viu e ficou preocupada, mandou levar no hospital pra eles verem e fazerem exames. Chegamos lá e eles foram logo dizendo que era uma infecção superficial (não era na articulação ou no osso) e que era melhor abrir e drenar. Pergunta se eles fazem sedação? Claro que não. Eles queriam abrir apenas com uma anestesia local. Quando perguntei se poderiam sedá-la para o procedimento, eles me disseram que não, só se fosse via intravenosa e no centro cirúrgico. Fiquei falando com a Celinha no Twitter, que é pediatra e sempre uma querida pronta a ajudar, e ela foi sugerindo algumas coisas menos invasivas (uma ultrasonografia pra ver se tem pus, um exame de sangue pra ver como está a infecção), mas os médicos não toparam nada, falaram que era muito melhor drenar. Acabei dizendo que não ia fazer a drenagem antes de testar um antibiótico pra ver se ela melhora sem precisar abrir o joelho. É isso que eles não entendem por aqui, eu como adulta até toparia fazer a drenagem e resolver de vez o problema (e ia ter que tomar antibiótico também do mesmo jeito), mas não dá pra esperar que uma criança de 5 anos (ainda mais uma que já morre de medo de hospital) vá ficar sentadinha ou deitadinha na boa cooperando com um negócio desses.

Tem outras coisas que não vou lembrar agora (se eu for mais a fundo no assunto planos de saúde e a reforma que o presidente Obama passou então, esse assunto rende muito). Pra quem se espantou e se pergunta “mas não é pros EUA que vai muita gente se tratar porque eles tem as melhores opções?” sim, eles realmente tem tecnologia e pesquisa de ponta – pra quem tem dinheiro, claro, porque os melhores hospitais do país com esses super tratamentos são caríssimos. E o que costuma acontecer é que quem vem de fora já vem com um diagnóstico, então não precisou passar pela frustração de investigar uma doença aqui. E o atendimento, esse vai ser normalmente muito frio e apressado (frio porque é apressado ou apressado porque não há interesse?) – eles se preocupam muito pouco com o emocional, o foco é sempre na saúde física apenas. Consertam o corpo e deixam a cabeça explodir…

Enfim, em quase 11 anos morando nos EUA, tendo morado em 3 estados muito diferentes entre si, tivemos inúmeros médicos, passei por vários hospitais e cirurgias, tivemos vários pediatras pras crianças. Conto nos dedos de uma mão os médicos que além de competentes davam alguma indicação de interesse pelos pacientes, a maioria sempre nos tratou mais num esquema “oi, tudo bem e tchau” mesmo. E olha que já tive planos de saúde excelentes, que cobriam 100% de tudo, nos melhores hospitais. Morro de pena da maioria da população que não tem essa sorte, e paga muito caro por um serviço que deixa muito a desejar. Não foi a toa que o cineasta Michael Moore fez o filme Sicko, em 2007, criticando duramente o sistema de saúde americano.

Por que eu não gosto do sistema de saúde americano?

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Sobre o Autor:
Humanista que contribui para a efetiva aplicação do artigo 3°, da CF/1988; (objetivos fundamentais), do artigo 5°, da CF; (Direitos e Garantias Fundamentais da Pessoa Humana), do artigo 37 (princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência; principalmente sobre a moralidade administrativa) da Constituição Federal de 1988; e Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos e Garantias Fundamentais da Pessoa Humana dos quais o Brasil é signatário. NÃO HÁ DIGNIDADE HUMANA NUMA NAÇÃO QUANDO A MAIORIA DO POVO NÃO TEM QUALIDADE DE VIDA SEJA POR: SALÁRIO MÍNIMO QUE NÃO ATENDE AS NECESSIDADES BÁSICAS (art. 7°, IV, da CF); ESCASSEZ OU AUSÊNCIA DE SEGURANÇA PÚBLICA (art. 144, da CF); SERVIÇOS PÚBLICOS INEFICIENTES (LEI Nº 8.987, DE 13 DE FEVEREIRO DE 1995); IMORALIDADE DOS AGENTES POLÍTICOS (LEI Nº 8.429, DE 2 DE JUNHO DE 1992); DOENÇAS PROVOCADAS POR PRECARIEDADE NA INFRAESTRUTURA DE SANEAMENTO BÁSICO (LEI Nº 11.445, DE 5 DE JANEIRO DE 2007); OMISSÃO, NEGLIGÊNCIA DAS AUTORIDADES PÚBLICAS QUANTO AO USO INDISCRIMINADO DE AGROTÓXICOS NA ALIMENTAÇÃO HUMANA (LEI Nº 7.802, DE 11 DE JULHO DE 1989); VOTAÇÃO SECRETA DE PARLAMENTARES PARA ABSOLVER AGENTE POLÍTICO CORRUPTO..