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terça-feira, 7 de junho de 2016

Entrevista com a fundadora do Grupo de Apoio à Mulher [GRAM], Solange Pires Revorêdo

O artigo é dividido em três partes. A primeira parte consta entrevista com a fundadora do Grupo de Apoio à Mulher, Solange Pires Revorêdo. A segunda parte, minha experiência no grupo WhatsApp. A terceira parte, as minhas considerações.

Primeira parte — entrevista com a fundadora do Grupo de Apoio à Mulher, Solange Pires Revorêdo

GRAM — Grupo de Apoio à Mulher — já consta com quase 1.000 [mil] membros, e não para de aumentar. Fundada em 2010, a comunidade no Facebook tem como propósito ouvir, orientar, interagir, informar, trocar experiências com pessoas e acompanhar cada caso, de violência à mulher. Comunidade oferece participação no WhatsApp — (21) 993599517.

1) Quando surgiu GRAM e qual o seu propósito?

Solange — O GRAM surgiu há seis anos quando criei uma página no Facebook com intuito de esclarecer, informar e orientar mulheres vítimas de violência doméstica, no início não se chamava GRAM, se chamava ONG das Mulheres Vítimas de violência doméstica.

2) O sexo masculino pode participar do grupo?

Solange — O sexo masculino pode participar desde que seja como colaborador já que o foco é assistência à Mulher.

3) O GRAM ajuda às vítimas de violência doméstica de que maneira?

Solange — O GRAM dá assistência jurídica psicológica social para as vítimas auxiliando no empoderamento das mulheres vítimas de violência doméstica.

4) As delegacias em geral estão preparadas para as denúncias de crimes praticados as mulheres?

Solange — Várias vítimas já reclamaram do despreparo e do desserviço das delegacias para realizar a denúncia com segurança.

5) A aplicação da Lei Maria da Penha tem sido eficiente?

Solange — A Lei Maria da Penha é aplicada com eficiência em alguns estados, mas, numa visão geral, numa visão de qualidade de atendimento no país, ainda está muito precário.

6) Há uma corrente de pessoas, principalmente homens, que dizem que a Lei Maria da Penha defende mulheres que se aproveitam desta Lei, para ganhar dinheiro deles ou coagi-los. Como o GRAM, tanto você quanto os membros, pensam a respeito disto?

Solange — Quanto à mulher usar a lei Maria da Penha para benefício próprio, na minha opinião, os defensores públicos têm "olho clínico" para detectar esse tipo de golpe. Estive com a Dr. ª Cristiane Xavier, defensora pública do Juizado de violência doméstica do RJ, e ela me afirmou que é muito fácil perceber quando uma vítima está forjando uma situação, até porque, além de passar pela Defensoria, existe uma perícia técnica para legitimar o depoimento e a denúncia da vítima.

7) Você acha que os policiais estão preparados, técnica e humanisticamente, para atender às vítimas?

Solange — Quando a lei Maria da Penha foi criada para um policial trabalhar numa delegacia especializada, ele tinha que se preparar, fazer um curso específico, agora não, virou bagunça. O policial sai de uma unidade comum e vai para uma delegacia especializada sem o menor preparo, daí a qualidade do atendimento caiu bruscamente

8) As mulheres conhecem bem a Lei maria da Penha?

Solange — Acho que nós, Mulheres temos que nos informar, saber dos nossos direitos, nos empoderar e fazer valer esses direitos, só assim passaremos a ser vistas como iguais.

9) Fala-se muito em machismo, mas há machismo entre as próprias mulheres. Por exemplo, uma mulher que traja roupa curta é repudiada por outras mulheres. Você acha que isso contribui para as agressões de homens às mulheres? Por exemplo, houve pesquisa que demonstrou que mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas.

Solange — E uma ignorância julgar uma mulher pela roupa que ela veste. Homem anda sem camisa na rua e nem por isso é estuprado por mulher, esse comportamento e esse pensamento e puramente machista.

Se você, mulher, que foi, ou é, vítima de agressão doméstica, não tenha receio e participe do GRAM. Há equipe multidisciplinar [advogados, defensora pública, psicólogas] para lhe ajudar.

GRAM. Disponível:

Facebook — https://www.facebook.com/groups/590430007653216/

Blog — http://grupodeapoioamulher.blogspot.com.br/

Segunda parte — Experiência dentro do grupo, no WhatsApp

Tive a oportunidade de participar do grupo no WhatsApp. Fiquei receoso quanto à receptividade no grupo. Por quê? É necessário frisar que o grupo é formado por mulheres vítimas de agressões de homens, sejam namorados, maridos e até ex-parceiros. De plena consciência de minha presença no grupo, por ser homem, poderia ser rechaçado por algumas mulheres do grupo. É preciso esclarecer que qualquer vítima de agressão, física ou psicológica, que quase desencadeou o falecimento, cria resistência inicial a qualquer personagem, ou objeto, que esteja associado ao momento da agressão. Ou seja, trauma. Como as mulheres, vítimas de agressões masculinas, iriam me recepcionar?

Na primeira vez que ingressei, fiquei observando as mensagens. Depois, comecei a dissertar sobre a perda do poder feminino nas sociedades humanas. Também iniciei ajuda às vítimas, ou seja, como conseguir defesa aos seus direitos humanos violados — explanei sobre a possibilidade de petição à Corte Interamericana de Direito Humanos [CIDH], em caso de omissão ou lentidão das autoridades brasileiras. Perguntei se as integrantes do grupo conheciam a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher ou Convenção de Belém do Pará. Sai digitando. A barreira da desconfiança fora transposta.

Recebi chamada de uma das integrantes do grupo. Perguntou-me como ela poderia contar a sua história. Dei algumas informações. Fui elogiado pela ajuda por outras integrantes. Solange Pires Revorêdo, e profissionais do Direito, monitoravam e participavam das conversações. Existe uma equipe técnica por detrás do grupo no WhatsApp. Psicólogos, defensores públicos etc. É preciso, pois são vítimas e ex-vítimas de agressões masculinas. O grupo é formado por mulheres vítimas e ex-vítimas de agressões masculinas. Psicólogos dão apoio no “reservado”. As mulheres que já superaram, parcialmente ou totalmente, os traumas ajudam às novas integrantes do grupo. E isso é importantíssimo, pois sessão de grupo com vítimas que passaram por situações análogas quebra a barreira do receio de quem ingressa pela primeira vez no grupo. Entender uma dor, profundamente, somente um profissional ou alguma pessoa que passou pelo mesmo trauma. Mesmo assim, acredito que quem tem a maior probabilidade de sentir a dor aleia é quem passou pela mesma situação.

Certa vez ingressei no grupo à tarde, geralmente entrava à noite. Verifiquei momento de descontração no grupo. Mensagens e imagens de otimismo. Uma das integrantes digitou sobre os Celtas e o respeito à mulher, outra digitou sobre o respeito à mulher antes do Cristianismo. Digitei, só que falei sobre homens agressivos e traumas — o que poderia levar à agressão às mulheres. Neste momento, uma das integrantes disse que não queria saber do passado de qualquer agressor. Por ser agressor, não merecia qualquer consideração. Já outra integrante disse que participara de palestra com psicólogo cuja informação explanada por ele é que muitos dos agressores masculinos também foram vítimas.

A situação ficou desconfortável para mim. Uma das integrantes se identificou como estudante de psicologia e disse que cada caso é um caso. Houve, por parte de outra integrante do grupo, a palavra “psicopata”, como se as atitudes dos agressores fossem tão somente cometidas por psicopatas. Aproveitei e relatei o caso do neurocientista norte-americano que se descobriu com "cérebro de psicopata" [1], no entanto, jamais cometera qualquer brutalidade associada a psicopatia.

"Tive várias conversas reveladoras com minha mãe. Ela me disse que sempre percebeu um lado sombrio em mim e tomava cuidado especial para neutralizar essas tendências e incentivar outras, mais positivas", relata James Fallon, professor de psiquiatria e comportamento humano da University of California, Irvine (UCI).

Uma das integrantes me perguntou quem eu era, para se sentir confortável. Colei um dos meus perfis que tenho em sites que envio artigos. Meu celular tocou! Era Dr. ª Cristiane Xavier, defensora pública. Perguntou-me se eu era jornalista. Senti, em sua voz, certa preocupação. Falava rápido, perguntava sobre mim. Por quê? O grupo é formado por mulheres vítima de agressões masculinas. Como bem disse Cristiane “Muitas se encontram em situação de risco de vida!”. Num artigo — Jornalismo: sensacionalismo ou falta de conhecimento sobre Direitos Humanos? — dissertei sobre condutas de alguns jornalistas incompatíveis com os direitos humanos. Infelizmente, há jornalistas que agem pelo sensacionalismo, pelo calor das emoções para angariar IBOPE. Eis o motivo do receio da defensora pública. Identifiquei-me como jornalista, mas também da área de saúde. E compreendia muito bem a preocupação dela. Depois de alguns minutos, a preocupação dela decaiu.

Terceira parte — considerações

A violência contra a mulher é cultural. A violência não se baseia tão somente do homem à mulher, mas de ideologias que são compartilhadas por algumas mulheres. Por exemplo, a roupa decotada. Quem se lembra das agressões contra Geisy Villanova Arruda na Universidade Uniban? Ela foi hostilizada por homens e mulheres, por estar com vestido curto. Existem casos e casos em relação à agressão ao sexo feminino. Apesar de os brasileiros estarem no século XXI, preconceitos e discriminações existem [misoginia]. A submissão da mulher ao homem, no Brasil, data desde o Império. Por exemplo, na Ordenações Filipinas o marido poderia matar a própria mulher. No Código Civil de 1916, a mulher ainda era mera costela de Adão, ou seja, por ser um subproduto do homem, ela não tinha direitos iguais ao homem [soberano].

“Art. 233. O marido é o chefe da sociedade conjugal, função que exerce com a colaboração da mulher, no interesse comum do casal e dos filhos (arts. 240, 247 e 251)”. [LEI Nº 3.071, DE 1º DE JANEIRO DE 1916]

A Carta Cidadã d 1988 igualou direitos entre homens e mulheres [art. 1º, I, da CF], formalmente. Todavia, materialmente [art. 3º, da CF], ainda há muito para se conquistar por parte das mulheres seja laboral, por salários condizentes ao ato laboral, e não por ser mulher [discriminação], na política etc. A Lei Maria da Penha foi uma conquista árdua para as mulheres brasileiras. Ela só foi possível após os legisladores e juízes sofrerem constrangimento internacional.[2] Li no grupo [WhatsApp] que falta entrosamento entre os órgãos públicos para proteção eficiente [EC nº 19/98] às mulheres agredidas, assim como despreparo de alguns servidores públicos no atendimento solidário. Verifiquei que muitas mulheres do GRAM — Grupo de Apoio à Mulher — estão entusiasmadas com os profissionais [psicólogos, operadores de Direito] que prestam verdadeiro serviço humanitário.

No grupo, mulheres desesperadas querendo pronto atendimento e solução do Estado brasileiro. Entre as vítimas, a solidariedade que elas esperam, por serem humanas, dotadas de sentimentos, do direito natural de viver em paz, com saúde física e mental, de ter vida construtiva pelos próprios esforços. Algumas, compreensível, pelos traumas recente, consideram os agressores verdadeiros psicopatas. Outras, já recuperadas dos traumas, consideram que há agressores e agressores, isto é, homens psicopatas e homens que foram educados erroneamente, que foram também vítimas de ideologias da Arquitetura da Discriminação.

Isonomia

A Lei Maria da Penha tem sido aplicada também para proteger os homens em caso de estes sofrerem violência doméstica. Operadores de Direito divergem sobre a aplicabilidade da Lei no caso de o homem sofrer agressão por parte da mulher.

No site Consultor Jurídico, a explanação do operador de Direito sobre a matéria “Homem pode reagir como autodefesa a agressão”:[3]

“Nós advogados somos frequentemente chamados a orientar nossos clientes a respeito de como proceder quando o casal já não está mais se dando bem, e algumas brigas surgem. A orientação é uma só, aos maridos: façam as malas, e só se aproximem de suas esposas na presença de várias testemunhas, exceto se for milionário e estiver disposto e permanecer um bom tempo na cadeia. De fato, basta que qualquer mulher compareça a uma delegacia alegando ter sido agredida física ou moralmente pelo marido, companheiro, namorado ou mesmo 'ficante' para que a prisão seja decretada. A Lei Maria da Penha significou um considerável avanço na proteção à mulher, mas a edição da Lei não foi acompanhada da necessária reestruturação do Poder Judiciário e do Ministério Público. Esses órgãos no Brasil estão empenhados em espalhar a discórdia entre os cidadãos, de modo a que enquanto eles se digladiam entre si os abusos estatais e dos agentes públicos em geral restam despercebidos. Assim, diante de qualquer alegação da mulher, mesmo sem o mais longínquo cabimento ou base fática, a opção tem sido a prisão do suposto agressor, até melhores esclarecimentos, exceto se o suposto agressor é um dos protegidos dos magistrados e membros do Ministério Público. Proposta a ação penal, os fatos são irrelevantes para o processo, uma vez que a absolvição ou condenação dependerá unicamente, via de regra, da qualidade do acusado. A decisão notificada na reportagem NÃO DEVE ser entendida como "precedente", nem como "orientação da jurisprudência", mais apenas mais uma decisão. Amanhã, quando as partes forem outras, o mesmo órgão jurisdicional pode prolatar outra decisão no outro extremo”.

Em outra matéria — Marielle Brito inaugura escritório focado na defesa de homens em separações —, no mesmo site, a advogada Marielle Brito explicita a sua ideologia, a de defender os homens em separações:[4]

“Estou fazendo um bem às mulheres [ao defender homens], que é acabar com a raça da mulher oportunista, porque o que mais tem por aí são mulheres interesseiras, que querem conseguir um bom marido e viver às custas dele. Sou a favor de as mulheres não dependerem dos homens”.

A matéria acima teve repercussão, e foi ofertada nota de repúdio — Advogada divulga "nota de repúdio absoluto" a reportagem publicada pela ConJur — em outra matéria.[5]

Violência de mulheres aos homens. Ativismo masculino

Não poderia deixar de expor sobre movimentos sociais contra violência seja praticada por homens ou mulheres. No YouTube [6] há comercial demonstrando comportamentos dos pedestres em duas situações: mulher agride homem; homem agride mulher. Quando é o homem que agride mulher, os pedestres ficam aterrorizados. Já quando a mulher agride o homem, os pedestres ficam rindo.

No site New Manking [7], a ONG promete dar assistência aos homens:

“Nossa linha de ajuda confidencial está disponível para todos os homens em todo o Reino Unido que sofrem de violência doméstica ou abuso doméstico por sua esposa atual ou antiga ou parceiro (incluindo o parceiro do mesmo sexo).

Isto pode variar de violência real, de jogar objeto ao abuso mental, tais como assédio moral e insultos constantes.

Fornecemos apoio emocional e informações práticas.

Recebemos telefonemas de vítimas do sexo masculino em todas as faixas etárias e profissões:

• De garis e médicos a banqueiros e construtores;

• De homens de 20 anos para os homens em seus 80;

• De homens em toda a Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e país de Gales”.

O blog Masculinismo e Direitos Iguais (MDI) trata sobre discriminação de gênero. [8]

Matérias sobre mulheres que agridem homens

Digitar e encontrar nos mecanismos de buscas sobre violência de mulher ao homem, não é tão difícil de achar. Na matéria “Lei Maria da Penha coloca 140 mulheres na cadeia” [9], do site Delas [IG], apesar de as mulheres agredirem, a porcentagem de homens a agredir é maior. No mesmo site, reportagem com Maria da Penha Maia Fernandes, que, infelizmente pelo acontecimento desumano, deu origem a Lei Maria da Penha. O título “As meninas começam a reproduzir o que vivenciam em casa e utilizam a violência” já leva a uma reflexão sobre condutas dos genitores.

The Guardian [11] divulgou matéria de violência feminina aos homens.

Concluo que, pela historicidade brasileira, e até planetária, a mulher, de ser humano com poderes dentro e fora âmbito familiar, passou a ser considerada um ser humano inferior. A CF trouxe igualdade formal, porém a igualdade material ainda está muito distante da realidade. A Lei Maria da Penha é lastro de segurança para as mulheres. As mulheres, vítimas de agressões masculinas, têm a oportunidade de delatar os agressores, de denunciar a omissão ou ineficiência do Estado brasileiro. Não é possível justificar agressão, a não ser em legítima defesa, seja pelo ato masculino ou feminino. Pesquisei em vários sites e blogues, entre matérias e comentários há “ditadura feminista”, como se a Lei Maria da Penha fosse uma “vingança” de mulheres oportunistas. Em certa ocasião, editei artigo Lei Maria da Penha: como se proteger de mulheres oportunistas. A intenção foi colher informações sobre a Lei. A maioria dos comentários foram do sexo masculino; alguns comentários tive que deletar [filtrar]. Pelos comentários, escolhi palavras, ou frases, que consideravam importantes para pesquisar na internet. O que pensam os homens e mulheres sobre a Lei Maria da Penha? A Lei é positiva para os homens? Os homens a acham “desproporcional” já que tem a CF [caput do art. 5º] para garantir direitos às mulheres? Entre outras perguntas.

Mesmos que as futuras estatísticas demonstrem que os homens brasileiros representem maior taxa de vítimas de violência doméstica, isto não pode servir de desculpa para agressões às mulheres. Como dito pela a autora da Lei Maria da Penha, a violência se aprende nos lares. O sexismo tem que parar na cultura brasileira, se a própria cultura quiser um país humanizado. Como sempre friso, na maioria dos meus artigos, a máquina antropofágica, em si, não tem cor, sexo, religião, morfologia. Ela age pela ação da Arquitetura da Discriminação: cria a falsa noção de “superior” e “inferior”, aguça o complexo de inferioridade cujo resultado pode transformar pessoas em suicidas, homicidas, capachos.

GRAM — Grupo de Apoio à Mulher — tem prestado serviço humanitário aos seus membros. As dores e os desesperos das mulheres no WhatsApp são possíveis de serem sentidas pelas mensagens deixadas. A Dr. ª Cristiane Xavier, assim como outros profissionais do GRAM, agem com tecnicidade, mas sem deixar de lado o humanitarismo. Muitos elogios à equipe do GRAM são escritos pelas mulheres vítimas de agressões. Nenhuma criança nasce odiando, especificamente, um gênero, mas pode odiar pelos acontecimentos vivenciados, a começar pelo próprio lar. Aos séculos pretéritos, seja no Brasil ou qualquer outro país, a Arquitetura da Discriminação construiu e fomentou ódios, comportamentos desumanos. Mulheres se digladiavam, por exemplo, pelo tipo de roupa e postura considerada imorais. Os movimentos feministas garantiram frutos: direito ao voto; igualdade formal e material; direito ao pleno emprego, entre outras conquistas.

O estupro da adolescente de 16 anos de idade, por mais 30 seres humanos, do sexo masculino, mostra o lado obscuro da perversidade humana. De vítima passou a ser coadjuvante do estupro. Por quê? É necessário frisar que o estereótipo de mulher submissa, e até pecadora, data, por exemplo, da Idade Média. Para algumas religiões, a mulher é portadora de sedução diabólica ao homem, portadora de feitiçarias aprendidas com Satã. Ela, em si, é o pecado. Não se pode esquecer que as religiões já foram Estados. As mulheres eram ensinadas a serem submissas aos homens. Esta construção ideológica permitiu que as próprias mulheres passassem a serem “fiscais” delas mesmas, de forma que não “pecassem”. Em síntese, na maioria das vezes, a culpa sempre era da mulher. A adolescente estuprada é um estereótipo fiel do machismo. Não em refiro unicamente ao homem, mas em relação a algumas mulheres, que assumiram a ideologia do soberano [homem].

Poderão acusar a adolescente para justificar o estupro. Ora, o corpo é um templo da alma, e é a alma que deve permitir o que se faça com seu templo [corpo]. Suponhamos, que ela estava drogada, seja usuária ou induzida, assim mesmo, ninguém tem o direito de violar seu templo. Digamos que ela quis, em primeiro momento, ter relação com dois homens, mas, no momento de consumar, desistiu. Também ninguém tem o direito de violar o templo da alma da adolescente. Ser humano não é objeto; o objeto, ao seu possuidor, pode ser usado por ele, e até esquecido nalgum lugar. O ser humano não é inanimado, não pode ser visto como objeto a ser usado como bem se quer. Infelizmente, a máquina antropofágica destrói vidas. A educação “superior” não permite a existência do “fraco”. É comum, entre o ensinamento dentro dos próprios lares de que menino pode tudo, menina quase nada. Se há uma mulher, o homem é obrigado a copular, para defender a sua “honra”. Nalguns casos, quando o homem não quer copular com a mulher, ela, então, o chancela de “bicha” etc. Se é a mulher que toma a inciativa de se aproximar de algum pretendente, ela é “libertina”.

Entendam que não estou justificando condutas. Repito, o corpo é o templo da alma, e só ela deve dispor de seu corpo, de forma consciente, sem maquiavelices de terceiros. A barbaridade nas inter-relações humanas se deve a desconstrução de que o outro ser humano é ser vivo sagrado, não acima dele mesmo e muito menos acima dos animais não humanos. Infelizmente, neste século, o ser humano é efêmero. O que importa são as ideologias, não a vida em si. O Homo Sapiens virou celebridade, o seu brilhantismo se estingue quando não mais interessa aos holofotes das vaidades, do modismo, do êxtase. Em analogia, é a banalidade do mal, conforme descreveu Hannah Arendt. O que nós estamos fazendo, pelo menos, para que a desumanização não ocorra?

Vendem-se o ser humano como produto de consumo. “Consome-se” o melhor ser humano, pelo que ele tem de bens materiais, ou que possa dar lucro pelo sensacionalismo. Os jovens são induzidos pelas publicidades, que cada vez mais extirpa a simplicidade da vida, porém supervaloriza o ego em busca de sucesso, de poder, de amor; no entanto, sempre pelo funil do individualismo. É necessário sempre se dopar. Seja pelos próprios hormônios ao se buscar o perigo, ou por substâncias externas que possam manter o corpo e a mente em êxtases.

É o século do vazio. O ser humano nunca se sentiu tão vazio interiormente. É necessário rotulá-lo, para que ele se sinta pleno. Construiu-se o “super-homem” e a “mulher-maravilha”: não adoecem; não se ferem; não se cansam; são autossustentáveis. Entender o que dissertei, é compreender a urgência de educação universalista: a vida em si é o bem mais preciso. E a vida, contemporaneamente, nada vale. Vale o momento, a sensação unicamente sedimentada no ego.

Referências:

GAFFO, Bethânia Cristina. O FEMININO NO BRASIL DO SÉCULO XIX: A QUESTÃO DA SUBMISSÃO E A MULTIPLICIDADE DE FUNÇÕES. Disponível em: http://www.indev.com.br/semana/trabalhos/2012/2.pdf

BBC Brasil. ‘Tinha medo do que iam pensar de mim’, diz homem vítima de violência doméstica. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141213_homem_violencia_domestica_ni_cc

Centro de Atendimento terapêutico - CAT. "Violência no Relacionamento" - O homem agressivo. Disponível em: http://www.psicologia.spo.com.br/Textos_Viol%C3%AAncia_relacionamento.htm

Conjur. Homem pode reagir como autodefesa a agressão. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2013-ago-01/homem-reagir-autodefesa-agressao-parceira

STF. A Lei Maria da Penha revisada. Disponível em: http://stj.jus.br/internet_docs/ministros/Discursos/0001114/A%20LEI%20MARIA%20DA%20PENHA%20revisada.doc

YouTube. Pare de postar felicidade falsa - Leandro Karnal. Disponível em:

[1] — BBC. Pesquisador se descobre psicopata ao analisar o próprio

Cérebro. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/12/131223_psychopath_inside_mv

[2] — Jornal Senado Federal. Brasil só criou Lei Maria da Penha após sofrer constrangimento internacional. Disponível em: http://www12.senado.leg.br/jornal/edicoes/especiais/2013/07/04/brasil-so-criou-lei-maria-da-penha-apos-sofrer-constrangimento-internacional

[3] — Conjur. Homem pode reagir como autodefesa a agressão. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2013-ago-01/homem-reagir-autodefesa-agressao-parceira

[4] —Conjur. Marielle Brito inaugura escritório focado na defesa de homens em separações. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2015-ago-11/marielle-brito-inaugura-escritorio-focado-defesa-homens

[5] —Conjur. Advogada divulga "nota de repúdio absoluto" a reportagem publicada pela ConJur. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2015-ago-14/advogada-divulga-nota-repudio-absoluto-reportagem-conjur

[6] – Youtube. Violence is violence - Mankind Initiative - TV Ad. Disponível em:

[7] — Mankind. Proteção ao home que sofre violência doméstica. Disponível em: http://new.mankind.org.uk/

[8] — Masculinismo e Direitos Iguais (MDI). Disponível em: http://masculinismoedireitosiguais.blogspot.com.br/

[9] — Delas IG. Lei Maria da Penha coloca 140 mulheres na cadeia. Disponível em: http://delas.ig.com.br/comportamento/2013-05-24/lei-maria-da-penha-coloca-140-mulheres-na-cadeia.html

[10] — Delas IG. “As meninas começam a reproduzir o que vivenciam em casa e utilizam a violência”. Disponível em: http://delas.ig.com.br/comportamento/2013-03-08/as-meninas-comecamareproduziroque-vivenciam-em-casaeutilizamaviolencia.html

[11] — The Guardian. Mais de 40% das vítimas de violência doméstica são do sexo masculino. Denis Campbell. Sábado 04 de setembro de 2010. Disponível em: http://www.theguardian.com/society/2010/sep/05/men-victims-domestic-violence

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Sobre o Autor:
Humanista que contribui para a efetiva aplicação do artigo 3°, da CF/1988; (objetivos fundamentais), do artigo 5°, da CF; (Direitos e Garantias Fundamentais da Pessoa Humana), do artigo 37 (princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência; principalmente sobre a moralidade administrativa) da Constituição Federal de 1988; e Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos e Garantias Fundamentais da Pessoa Humana dos quais o Brasil é signatário. NÃO HÁ DIGNIDADE HUMANA NUMA NAÇÃO QUANDO A MAIORIA DO POVO NÃO TEM QUALIDADE DE VIDA SEJA POR: SALÁRIO MÍNIMO QUE NÃO ATENDE AS NECESSIDADES BÁSICAS (art. 7°, IV, da CF); ESCASSEZ OU AUSÊNCIA DE SEGURANÇA PÚBLICA (art. 144, da CF); SERVIÇOS PÚBLICOS INEFICIENTES (LEI Nº 8.987, DE 13 DE FEVEREIRO DE 1995); IMORALIDADE DOS AGENTES POLÍTICOS (LEI Nº 8.429, DE 2 DE JUNHO DE 1992); DOENÇAS PROVOCADAS POR PRECARIEDADE NA INFRAESTRUTURA DE SANEAMENTO BÁSICO (LEI Nº 11.445, DE 5 DE JANEIRO DE 2007); OMISSÃO, NEGLIGÊNCIA DAS AUTORIDADES PÚBLICAS QUANTO AO USO INDISCRIMINADO DE AGROTÓXICOS NA ALIMENTAÇÃO HUMANA (LEI Nº 7.802, DE 11 DE JULHO DE 1989); VOTAÇÃO SECRETA DE PARLAMENTARES PARA ABSOLVER AGENTE POLÍTICO CORRUPTO..